Compreendendo a criança. O Medo Neurótico.

Compreendendo a criança. O Medo Neurótico.

 Zézinho está agora com 4 anos e a mãe se queixa de sua timidez: "não sei o que há com esse menino; tem medo de tudo e de todos. Até parece sentir uma ameaça em cada pessoa que dele se aproxima!" A mãe de Zézinho sabe que todas as coisas tem uma razão de ser, que nada acontece por mero acaso, que é preciso primeiro conhecer a origem, os antecedentes de um comportamento, se se pretende compreendê-lo.

Mas ela não consegue entender o filho, não sabe a que atribuir o negativismo, a atitude anti-social. Zézinho é criança que não confia em ninguém nem tampouco manifesta espiríto de colaboração. Embora não haja motivo aparente para seu retraimento, nada enfim que se justifique, aos olhos da mãe, o menino é arredio, prevenido, como se crianças e adultos só se aproximassem dele para causar-lhe prejuízo, maltratá-lo.

É natural que a mãe se aflija e que demonstre suas preocupações ao ver que o filho tudo faz para tornar-se desagradável, antipático. Então ela não sabe que uma pessoa em tais condições é incapaz de ligar-se efetivamente a outras e de participar da experiência de um grupo? Como esperar que seu filho venha um dia a ser feliz, a viver e trabalhar construtivamente em proveito próprio e alheio?

O que essa mãe não sabe é que talvez nunca possa reconhecer e aceitar, porque tremendamente doloroso, é o fato de ser ela própria a primeira e a principal responsável pelo drama que hoje tanto a martiriza. Sem querer prejudicar o filho, naturalmente, e sem saber o que fazia, a mãe exerceu sobre ele, desde os primeiros meses de vida, a pior das influências: ensinou-o a temer as pessoas.

Quem conheceu o menino desde os 6 meses de idade viu que criança risonha, que criança dada, ele foi, terá de se surpreender com a transformação de agora. Mas quem conheceu a mãe e reparou no modo pelo qual ela tratava o filho, sempre que alguém - estranho ou mesmo da família - dele se aproximava, não terá surpresa; compreenderá facilmente que a timidez, esse absurdo "medo de gente", que a criança hoje manifesta, é uma conseqüência natural, lógica, da atitude da mãe, desde que a criança nasceu.

Sempre que alguém chegava perto da criança, sorrindo-lhe, estendendo-lhe os braços na evidente intenção de segurá-lo, a mãe reagia contra: pressionava seu corpinho de leve, atraindo-o para si, no instintivo desejo de retê-lo. Assim, sem palavras, prevenia e alertava o filho contra perigos imaginários. Era como se ela lhe falasse claramente: "cuidado, não vá com fulano, desconfie, meu filho, só eu gosto de você, só eu o posso proteger".

Quando ela recebia visitas ou estava em viagem, procurava sempre defender o filho do olhar ou do carinho das outras pessoas, sentando-o de costas para elas. A medida que Zézinho começou a falar e a andar, a mãe alertava-o também verbalmente: não confie em ninguém, só quem gosta você é sua mãe. É natural que tudo isso tenha sido captado, sentido e assimilado.

Primeiro a linguagem do gesto e depois o reforço da palavra repisaram a mesma coisa: Todas as pessoas - com exceção de sua mãe - são perigosas.

Assim aos poucos, dia após dia, durante meses e anos, Zézinho finalmente aprendeu a lição do medo. Diante de cada rosto sorridente ou aceno afetuoso ele acostumou-se a pressentir a ameaça, a traição.

Desenvolveu gradativamente o instintivo sentimento de defesa que o bloqueou emocionalmente e que hoje - em forma de retraimento ou timidez - anulou sua espontaneidade, impedindo-o de relacionar-se, de conviver normalmente com outros seres humanos.

Fonte:

http://sitededicas.uol.com.br/dicasps4.htm